segunda-feira, 28 de julho de 2014

HERMENÊUTICA DA REFORMA NA CONTINUIDADE (II)

 "HERMENÊUTICA DA REFORMA NA CONTINUIDADE" NA DOUTRINA DE SÃO JOÃO DA CRUZ (II)

       As palavras da Igreja, que também são palavras de Deus, poderão, as vezes, ser contraditórias na letra, mas nunca em seu verdadeiro sentido.
       Continuação do tema anterior.

      "5. Deste modo e de outros muitos, sobrevém vários enganos às almas, em relação às palavras e revelações da parte de Deus, pelo motivo de se prenderem à letra e à forma exterior; porque, como já demos a entender, o principal desígnio de Deus nessas coisas é declarar e comunicar o espírito ali encerrado e, sem dúvida, difícil de entender. Tal espírito é muito mais abundante que a letra, muito extraordinário e fora dos limites dela. Assim, o que se prender à expressão literal ou à figura ou à forma aparente da visão não poderá deixar de errar muito, achando-se depois bem confuso e desprovido, por se haver muito guiado em tal assunto, segundo o sentido, em vez de dar lugar ao espírito em desnudez dos sentidos. "A letra mata e o espírito vivifica"(2Cort. 3,6), como diz São Paulo. Havemos, portanto, de renunciar à letra que neste ponto são os sentidos, e ficar às escuras na fé, que é o espírito, incompreensível aos sentidos.

     "6. Aí está por que a maior parte dos filhos de Israel, entendendo muito literalmente as palavras e sentenças dos profetas, ao ver que não se realizavam conforme suas esperanças, desprezavam as profecias não lhes dando fé. Chegou esse desprezo a tal ponto, que havia entre eles um ditado popular, quase como provérbio, escarnecendo dos profetas. Disto se lamenta Isaías nestes termos: "A quem ensinará Deus a ciência? E a quem dará a inteligência da sua palavra? Aos que já lhes tirou o leite, aos que acabam de ser desmamados. Eis que todos dizem, por escárnio, dos profetas: Porque manda, torna a mandar; manda, torna a mandar; espera, torna a esperar; espera, torna a esperar; um pouco aqui, um pouco aí. Porquanto com outros lábios e em outra linguagem ele falará a este povo" (Is. 28,9-11). Onde claramente dá a entender o Profeta como o povo fazia burla das profecias e dizia por escárnio o provérbio: espera, torna a esperar, como se as predições de Isaías nunca mais se devessem cumprir. Estavam apegados à letra, que é como leite de criancinhas, e aos sentidos, que são os peitos, contradizendo à grandeza da ciência do espírito. E assim exclamava Isaías: A quem dará ele a inteligência da sua doutrina, senão aos privados do leite da letra e desses peitos dos seus sentidos? Por isto é que não as entendem senão conforme esse leite da aparência exterior e segundo os peitos dos sentidos, aqueles que dizem: Manda, torna a mandar, espera, torna a esperar etc. Pois na doutrina da boca de Deus e não ao modo deles, e noutra língua que lhes é estranha, é que o Senhor lhes quer falar." (Subida do Monte Carmelo - Livro II - pgs 260-261 - Cap. XIX).

     Outra coisa que deveríamos levar em conta é que o leigo não tem a graça própria do estado para interpretar a palavra de Deus, esteja ela na Sagrada Escritura ou no Magistério; essa graça de estado quem a tém , em primeiro lugar, é o Papa, depois os Bispos a ele unidos, e depois os Sacerdotes.
     Os leigos tudo devem submeter ao juízo da Igreja.
     Continua.
     In Iesu.
     

     

HERMENÊUTICA DA REFORMA NA CONTINUIDADE

  "HERMENÊUTICA DA REFORMA NA CONTINUIDADE" DE BENTO XVI NA DOUTRINA DE SÃO JOÃO DA CRUZ (I)
 

 Citamos o texto de São João da Cruz, Doutor da Igreja, onde se encontra a doutrina que, se aplicada, nos leva, na atual situação em que nos encontramos, a concluir pela "hermenêutica da reforma na continuidade" ensinada e defendida pelo Papa Bento XVI.
O título do texto, na Obra de São João da Cruz, parafraseamos mais ou menos como segue:
As palavras da Igreja, embora sempre verdadeiras em si mesmas, podem ser para nós ocasiões de erros.

        Provas tiradas da doutrina de São João da Cruz.

           "Quem falar mal dele seja amaldiçoado; quem dele disser bem seja cumulado de bênçãos!" Da cerimônia da Sagração Episcopal, em uso no Rito Tridentino. Não sei se está em uso no Rito de Paulo VI.
          "... Contemplá-la, à tua bondade, ó bom Senhor, é com efeito minha purificação, é minha confiança, é a justiça." ( Guilherme de Saint - Thierry, in De contemplando Deo, Cap. I, no. 2 - Edições Subiaco, de Dom Bernardo Bonowitz, OCSO).
         A bondade de Deus certamente nos purifica porque  a nós se comunica, tornando-nos também bons e apóstolos de sua bondade. Quem quiser ser puro deve, antes de tudo, crer na bondade do Senhor. E quem recebe em si essa bondade deve retê-la e nela agir, sendo para os outros a bondade de Deus. Essa bondade é redentora e liberta-nos de todos os vícios e pecados e nos introduz na visão de Deus, porque "os puros de coração verão a Deus"(Ev.). Essa bondade de Deus é minha confiança porque sem medo corro aos braços do Pai para receber seu perdão e, depois de perdoado, distribuo também, com Deus e em Deus, esse perdão purificador das almas.
       Agir nessa bondade e tudo fazer em função dela, distribuindo ela aos outros e também a todos, é a justiça que a Deus devemos elevar de um coração purificado.
       Portanto, seja bom quem deseja fazer justiça contra seu irmão, ou melhor: que sua justiça contra quem quer que seja seja tua bondade, que saia do mais profundo do seu ser, e que essa tua bondade seja o próprio Deus que em ti a todos beneficia com a máxima Caridade que Ele mesmo é. Quando na Sagrada Escritura se fala de São José, dele se diz: "Era um homem justo."(Ev.)
      Justo exatamente por ser bom, um vaso da bondade de Deus. São José, rogai por nós.
      Iniciemos a citação do texto de São João da Cruz.

 
                                                                     "CAPÍTULO XIX - LIVRO II - SUBIDA DO MONTE CARMELO
                                          As visões e palavras de Deus, embora verdadeiras, podem ser para nós ocasiões de erros. Provas tiradas da Sagrada Escritura.
               1. Já dissemos como as palavras e as visões divinas, embora sejam verdadeiras e certas em si mesmas, nem sempre o são relativamente a nós, por dois motivos: o primeiro é devido à nossa maneira imperfeita de as entender; o segundo provém de suas causas ou fundamentos algumas vezes variáveis. Quanto à primeira razão, é evidente que Deus sendo infinito e imperscrutável encerra ordinariamente em suas profecias e em suas revelações alguns pensamentos e concepções muito diferentes do sentido que comumente lhes podemos atribuir; e são ainda tanto mais verdadeiras e certas  quanto menos assim nos parecem. Vemos bem esta verdade a cada passo, na Sagrada Escritura; nela lemos que muitos daqueles homens da antiguidade não viam a realização das profecias e palavras de Deus conforme esperavam; porque as tomavam segundo sua interpretação pessoal, e muito ao pé da letra. Isto aparecerá claramente pelos textos seguintes.
               2. No Gênesis, depois de conduzir Abraão à terra de Canaã, Deus lhe diz: "Eu te darei esta terra" (Gn 15,7). Mas Abraão, já velho, não via cumprir-se esta promessa tantas vezes renovada. Certa ocasião em que o Senhor ainda a repetia, o santo Patriarca o interrogou: "Senhor Deus, por onde poderei conhecer que hei de possuí-la?" (Gn. 15,8). Deus, então, revelou-lhe como tal promessa não se realizaria em sua pessoa, mas na de seus filhos, que possuiriam a terra de Canaã 400 anos mais tarde. Compreendeu deste modo Abraão o significado em si mesmo tão verdadeiro: porque sendo dada a terra de Canaã aos seus filhos por amor dele, era o mesmo que lhe dar pessoalmente. Estava, pois, Abraão enganado no seu primeiro modo de entender: se agisse então segundo seu juízo, poderia errar muito, pois a profecia não era para cumprir-se durante a sua vida. E aqueles que conheciam a promessa divina, e virão a Abraão morrer sem vê-la realizada, ficaram confusos pensando ter sido falsa.
              3. Outra prova temos na história de Jacó, seu neto. No tempo da desoladora fome que afligiu o país de Canaã, José fez vir seu pai ao Egito, e, durante a viagem, Deus apareceu a este e lhe disse: "Jacó, Jacó, não temas, vai para o Egito: eu irei para lá contigo, e eu te tornarei a trazer, quando de lá voltares" (Gn. 46,3-4). A profecia não se realizou conforme o sentido literal, pois sabemos que o santo velho Jacó morreu no Egito e de lá não saiu com vida. A profecia devia aplicar-se aos seus filhos, os quais tirou o Senhor dali muitos anos depois, sendo ele próprio o seu guia. Donde, se alguém soubesse desta promessa divina a Jacó, pudera ter por certo que o mesmo Jacó, entrando vivo e em pessoa no Egito por ordem e proteção do Senhor, assim também vivo e em pessoa devia sair dali. Não empregara Deus as mesmas expressões para lhe prometer sua assistência quando tivesse que sair? Quem assim julgasse teria decepção e espanto vendo Jacó morrer no Egito, antes de se realizar a promessa divina. Deste modo, as palavras de Deus, veracíssimas em si mesmas, podem, no entanto, ser ocasião de engano.
              4. Eis um terceiro exemplo, do Livro dos Juízes. Todas as tribos de Israel se reuniram para punir certo crime cometido pela tribo de Benjamim. O próprio Deus lhes indicara um chefe guerreiro e os israelitas certos estavam da vitória; ao se verem vencidos e com vinte e dois mil dos seus jazendo no campo de batalha, muito admirados ficaram. Puseram-se todo o dia a chorar em presença de Deus, não sabendo a causa de sua derrota, pois haviam entendido a vitória por certa. Como perguntassem ao Senhor se deviam ou não voltar ao combate, respondeu-lhes que fossem pelejar. Seguros da vitória, saíram com grande ousadia, mas novamente foram vencidos, perdendo dezoito mil homens. Caíram em grandíssima confusão, não sabendo mais o que fazer, pois, mandando-lhes o Senhor que pelejassem, sempre saíam vencidos; mormente excedendo eles aos seus contrários em número e fortaleza, porque os homens da tribo de Benjamin  não eram mais de vinte e cinco mil e setecentos, enquanto eles formavam um exército de quatrocentos mil. No entento, não os enganara a palavra de Deus; eles, sim, se enganavam no seu modo de entendê-la. Porque não lhes havia dito o Senhor que venceriam, senão que combatessem. E nessas derrotas quis castigar certo descuido e presunção que havia neles, e por esse meio humilhá-los. Mas quando finalmente lhes respondeu que venceriam, alcançaram de fato a vitória, embora com muita astúcia e trabalho (Jz 20,11s).
             São João da Cruz - Obras Completas - Editora Vozes - 1984 - pgs 258 - 260.
            Continua.
            In Iesu.